Devolver a terra à pedra que era: 50 anos da Oficina Brennand













No dia 11 de novembro de 1971 o artista Francisco Brennand, no alto de seus 44 anos, decidiu ocupar as ruínas da Cerâmica São João da Várzea, uma olaria fundada por seu pai, Ricardo Lacerda de Almeida Brennand, em 1917, com o objetivo de transformá-la em um ateliê no qual pudesse dar vazão à sua prolífica produção artística. No mês em que a Oficina Brennand completa meio século de existência, o complexo monumental de 15km2 e um dos principais cartões postais de Recife vai promover uma grande exposição do artista para celebrar a data. A inauguração da retrospectiva acontece pouco mais de dois anos após a importante reformulação institucional implementada no espaço, que se tornou oficialmente um instituto cultural sem fins lucrativos em setembro de 2019.


A exposição ‘Devolver a terra à pedra que era: 50 anos da Oficina Brennand’ é uma realização do Ministério do Turismo, da Oficina Brennand e do Bradesco, com patrocínio da Copergas. A Oficina conta ainda com o Grupo Cornélio Brennand como mantenedor e patrocínio do Instituto Cultural Vale.


De 21 de novembro/2021 a outubro/2022

Accademia



Fotos: Breno Laprovitera


Devolver a terra à pedra que era: 50 anos da Oficina Brennand


Não é possível precisar quando começa a história de um lugar como a Oficina Brennand. Sabe-se que foi edificada em 1971 por Francisco Brennand, a partir das ruínas de uma olaria fabril, que fora de seu pai, e que é constituída por mata e rio, feita de barro e fogo, inventada no sonho de um artista e erigida por uma coletividade de mãos. Ao invocar ancestralidades e evocar cosmovisões, a Oficina existe como arte em seu estado imemorial. Ela se inscreve no tempo mineral da pedra, ainda que pertença à efemeridade da terra. Como território, responde às estações e aos ciclos naturais, mas também às ocupações da cultura e a seus marcadores.


No lastro dessa história, a Oficina comemora seu cinquentenário, numa incursão cultural que, como fábrica ou ateliê, forjou um potente espaço de criação, pesquisa e difusão artística, ganhando contornos de museu, mas nunca abrindo mão de sua vocação — a que a nomeia — que é ser uma oficina. Como repositório de saberes, a Oficina Brennand está sempre em transmutação. O conceito de natureza, integrado às ideias de território e cosmologias, foi consagrado como ponto de partida para o programa que busca reacessar a obra de Francisco Brennand. A mostra Devolver a terra à pedra que era trata dos processos naturais como parte das cosmogonias do artista, quando natureza e cultura são entendidas de maneira integrada.


A natureza está na vanguarda de sua visão; é, acima de tudo, uma profunda consciência da interconexão de todos os seres vivos e da destruição de ecossistemas pela invasão da “civilização”. As imagens do mundo natural povoam suas obras. Brennand representa animais, plantas, ovos, serpentes, seres mitológicos ou formas de vida antigas. Aqui apresentamos parte de seu bestiário em cerâmica, a flora criada por ele, assim como pinturas pertencentes à série Amazônica, concebida entre 1966 e 1971. Numa época em que a preocupação com a destruição sistemática das Florestas toma conta das pautas, assim com as críticas ao extrativismo e à monocultura desenfreados, a série Amazônica parece mais pertinente do que nunca.


O tempo presente, essa entidade a quem Brennand reverenciava, surge aqui como elemento do universo orgânico e vital. O título da mostra, por sua vez, foi adaptado do verso final do poema O ceramista, que João Cabral de Melo Neto dedicou a Brennand. Nele estão contidas as forças que animam um projeto que celebra meio século, mas que compreende que vem de muito longe e que daqui pretende seguir o seu caminhar.


Júlia Rebouças e Julieta González